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O Globo e os Clientes da Calepino

Uma matéria publicada em dezembro de 2004 no jornal O Globo, do Rio de Janeiro, reuniu três dos principais clientes da Calepino: o IBGE, o IPEA e o IETS.

A matéria comenta pesquisa do IBGE, que confirma que há mais pessoas obesas do que desnutridas no Brasil.

Leia a íntegra da matéria do Globo (os clientes da Calepino estão marcados em azul):

    Pesquisa do IBGE Põe em Xeque Política Social

    Especialistas debatem papel do Fome Zero diante do baixo percentual de desnutrição entre adultos no Brasil

    A segunda etapa de divulgação da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) esquentou o debate sobre as mazelas sociais brasileiras - e as políticas indicadas para combatê-las. Ao informar que os adultos brasileiros estão mais expostos ao excesso que ao déficit de peso, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) pôs em xeque importantes indicadores sobre fome e pobreza no país, alguns deles usados pelo próprio governo no desenho de seus programas. Agora, especialistas e autoridades se ocupam de adequar conceitos para, em vez de reduzir, ampliar as discussões sobre o tema, num cenário em que o carro-chefe da política social do governo leva o nome Fome Zero.

    - "Fome e desnutrição são coisas diferentes. A fome é um fenômeno social de privação. A desnutrição é a expressão biológica dessa privação. As pesquisas, de fato, indicam um declínio importante da desnutrição, como mostra o IBGE. Mas isso não quer dizer que a fome não exista" - afirma a professora Sandra Chaves, do Departamento de Nutrição da Universidade Federal da Bahia (UFBA), que estuda as condições de vida no semi-árido.

    Segundo a pesquisa, só 4% têm risco de desnutrição

    A POF mostrou que apenas 4% dos brasileiros com 20 anos ou mais apresentam déficit de peso. O ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Patrus Ananias, reafirma o compromisso do governo com o Fome Zero e garante que o programa ataca não apenas a carência de alimentos, mas também outras dimensões da pobreza:

    - "Além de proporcionar alimentação com qualidade e regularidade, o Fome Zero e o Bolsa Família (braço de transferência de renda do programa) pretendem garantir a presença de crianças na escola, as condições de saúde dos beneficiários e preservar os vínculos familiares."

    Embora não inclua as informações sobre as condições nutricionais das crianças - que serão conhecidas numa próxima etapa, em 2005 - a pesquisa sugere a o problema da falta de alimentos foi superdimensionada. Importantes institutos de pesquisas estimam entre 16 milhões e 60 milhões o número de brasileiros miseráveis e pobres.

    - "Restringir a pobreza à questão calórica é muita pobreza. Esse debate não está restrito nem à questão alimentar nem à falta de renda. O que acontece no Brasil é um fenômeno mais amplo, que deve ser combatido com a atuação de todos os níveis de governo e da sociedade civil" - diz André Urani, diretor-executivo do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets).

    A diretora de Estudos Sociais do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Anna Peliano, afirma que a fome nunca foi tratada, nas políticas públicas, como sinônimo de desnutrição. Para ela, é preciso considerar o preço de uma cesta de alimentos necessários a uma dieta saudável. É este valor que vai determinar o total de famílias em risco:

    - "Parte-se do pressuposto de que, numa economia de mercado, as pessoas têm que ir ao mercado para adquirir sua alimentação. Este foi sempre o referencial" - diz.

    Ela acrescenta que o resultado da POF não desqualifica o uso de um quarto de salário-mínimo como o nível de renda per capita para classificar os extremamente pobres, ou de meio salário-mínimo para os pobres. O governo usa como critério para entrada no Bolsa Família o rendimento inferior a R$100, meio mínimo de 2002.

    - "Não é preciso grandes dados estatísticos para pensar que, com R$75 ou R$150 (o piso será reajustado para R$300 em 2005), o sujeito consegue se alimentar, se locomover, morar, ter educação e cuidar de sua saúde" - diz Anna.

    Francisco Menezes, presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), destaca que a pesquisa investigou apenas a nutrição calórica dos brasileiros. Ou seja, se há déficit de peso ou não. Ele lembra que há outras formas de desnutrição, por carência de determinados nutrientes, mesmo em obesos.

    Menezes acrescenta que o aumento da obesidade entre os pobres pode ser conseqüência do custo elevado de se manter uma dieta saudável. Fernando Gaiger, técnico do Ipea, lembra que as calorias vazias - como salgadinhos e refrigerantes, com alto poder calórico, mas pouco nutrientes - são mais baratas.

    O Consea está preparando, em parceria com os ministérios de Saúde, Educação, Desenvolvimento Agrário e Desenvolvimento Rural, uma campanha que deve entrar em ação no segundo semestre de 2005. Os projetos vão desde educação alimentar até estratégias de agricultura familiar para produção de frutas e verduras a preços menores.